Onde pára a inteligência?

 

Dizia António Aleixo que “há tantos burros mandando em homens de inteligência, que às vezes fico pensando que a burrice é uma ciência.” Pois parece que ele tinha toda a razão. 

O que nos é dado observar hoje, leva-nos a concluir que efetivamente quem desempenha lugares de destaque é frequentemente acusado de falta de inteligência pelas atitudes que toma, as quais causam incómodos sociais além de não servirem como exemplo para coisa alguma.

Nos últimos tempos em Portugal isso tem-se verificado com alguma frequência. São muitos os que através da comunicação social são apontados como desonestos, corruptos e desprovidos de senso de oportunidade considerando, claro está, a situação atual do país. Ora isto não é motivo para nos vangloriarmos das atitudes que eles tomam e da vergonha que alguns nos fazem passar, a nós, como portugueses cientes da nossa história, do nosso passado e da verticalidade que sempre caracterizou homens que inscreveram com letras de ouro o seu nome nos anais da História de Portugal. Já assim pensava Miguel Torga pelo menos a respeito deste reino maravilhoso que é este cantinho nordestino onde o rei é a própria Natureza e esta não é certamente, desonesta e corrupta.

A verdade é que me causa algum constrangimento quando os meios de comunicação social veiculam este tipo de informação e o confrontam com a opinião pública que já começa a funcionar em sintonia com eles. Dificilmente poderia ser de outra forma quando as notícias são demasiado fluentes e versam a mesma temática.

A desculpa que todos dão a respeito das causas da crise que nos assola, começa a ficar de tal forma gasta que nos induz numa perceção contrária, aduzindo razões diferentes como justificativas dessa mesma crise. A verdade é que se nos falta muito dinheiro para pagar o que devemos, não compreendemos como é que muitos “inteligentes” se governaram com tantos milhões que roubaram a alguém que se faz passar por burro!!! Ou será que são mesmos burros?

Por outro lado, se esses indivíduos são assim tão inteligentes, porque caíram na burrice de serem descobertos e arrastarem os milhões da culpa atrás de si de modo a levá-los a uma condenação (onde não existem sanções!) e a refugiarem-se num paraíso qualquer onde nem os “inteligentes” que governam os não vão buscar? Afinal quem é que é burro?

Cada um queixar-se-á do que mais lhe dói e os portugueses queixam-se da falta de dinheiro e emprego e das causas que a isso levaram porque, como todos sabemos, os impostos que são colocados sobre o povo português, destinam-se, em grande parte, a reaver o dinheiro que esses inteligentes desviaram e levaram para bem longe e nós sabemos que são muitos milhares de milhões. O que é mais caricato nestas coisas é que quem trabalha e os que querem trabalhar não encontram trabalho e os que nunca quiseram trabalhar a sério, são os que enxeram os bolsos de dinheiro e estão muito bem instalados na vida. Pois é, os querem fazer alguma coisa de útil, estão no desemprego e os que nada fizeram, estão ricos e nunca trabalharam. Francamente! Claro que o António Aleixo tinha toda a razão para fundamentar a sua teoria filosófica sobre a dualidade da inteligência e da burrice. Que há muitos burros a pensar, disso nós não temos dúvidas, agora que muitos inteligentes sejam burros é que faz confusão! Afinal os que deviam pensar e bem, não pensam, passando aos outros os certificados de toda a inteligência. Efetivamente, qualquer coisa aqui não está bem. Parece haver uma inversão de papéis desmesurada e arrepiante à luz de toda a inteligência! Mas será que somos todos burros? Se assim é, António Aleixo tinha uma vez mais razão e, de facto, acabamos todos por ter uma licenciatura já que a burrice passa a ser uma ciência. E que ciência!

Seja como for, eu recuso-me a ser licenciado em burrice, até porque me preso de ter, ainda, alguma inteligência!

Autor: Luís Ferreira

http://www.diariodetrasosmontes.com/cronicas/cronicas.php3?id=1294&linkCro=1

(09/07/2014)